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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto


Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto 
Frei Ildo Perondi (ildo.perondi@pucpr.br) 



Na primavera de 1947 foram descobertos os primeiros Manuscritos de Qumran. Esta foi considerada a maior descoberta de manuscritos da época moderna e a mais importante na região da Terra Santa. É certo que foi uma riqueza, mas também provocou muitas polêmicas e certa confusão.  

No segundo semestre de 2004, alguns destes manuscritos e objetos estiveram expostos no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Ultimamente encontramos livros, publicações e reportagens muito boas em jornais,  revistas e sites na Internet, mas também encontramos algumas publicações sensacionalistas e livros  best sellers (como os de M. Baigent e R. Leigh) ou o recente livro  O Código Da Vinci, de Dan Brown, também sensacionalista. Este tipo de publicação mais confunde que informa. São obras de  amadores, ignorando todo o trabalho feito e esquecendo a contribuição e o bem que estes Manuscritos nos trouxeram. 

Neste artigo procuraremos apresentar de forma resumida o que são os Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a ajuda que trouxeram para a tradução e interpretação dos livros do AT, e também para uma melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do NT e do Cristianismo. 

1. Qumran

É o nome do lugar onde foram encontrados os primeiros manuscritos numa gruta. Situa-se perto do Mar Morto, em Israel. Em seguida foram encontradas novas grutas com outros manuscritos e objetos, não só em Qumran, mas em toda a região do Mar Morto, e por isso hoje se fala dos Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto (ou do Deserto de Judá). Foram localizados também os restos dos edifícios onde se reunia a comunidade.  

No ano 70 os romanos destruíram o Templo de Jerusalém, destruindo também a cidade e Israel deixou de existir como estado judaico (até 1948). Em seguida, os romanos conquistaram e destruíram a comunidade de Qumran e depois tomaram a fortaleza de Massada, localizada próximo a Qumran. E em 135 dC foi vencida a última resistência 
judaica. 

Na época em que se descobriram os primeiros Manuscritos a região estava sob dominação inglesa, em seguida o território passou a fazer parte da Jordânia. Em 1948 Israel tornou-se um estado independente, porém  somente em 1967, com a guerra dos seis dias, é que a região de Qumran e do Mar Morto passou a fazer parte do território de Israel. 

2. O que são os Manuscritos?  

Os manuscritos são escritos, em couro ou papiros, em sua maioria na língua hebraica, e alguns poucos em aramaico e grego, que foram encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam em bom estado e outros estavam bastante deteriorados com o tempo e as condições onde foram  guardados. Ao todo foram encontrados em torno de 800 documentos. Alguns estudiosos sugerem que alguns manuscritos sejam cópias de livros sagrados que os judeus do Templo esconderam aí, quando pressentiram que os romanos destruiriam Jerusalém. Alguns são apenas fragmentos (pedaços) de textos. 

Em geral podemos dizer que os Manuscritos encontrados se classificam assim: 

1) Manuscritos bíblicos: estes textos são cópias fiéis que os habitantes da região de Qumran (escribas) transcreveram dos livros do Antigo Testamento (cerca de 225 manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior número de cópias, o segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente são também estes os três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de Ester e Neemias não foi encontrada nenhuma cópia (veja relação no final). 

2) Apócrifos: Foram encontradas cópias de diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia Hebraica, exemplo: apócrifo do Gênesis, de Henoc, de Noé, de Lamec, do Livro dos Jubileus, etc. É bom lembrar que na época em que foram escritos os Manuscritos a lista (cânon) dos livros do AT ainda não tinha sido concluída,  embora já houvesse um certo consenso. 

3) Comentários bíblicos: Foram encontrados muitos textos que eram comentários e interpretações que a comunidade escreveu sobre os livros do AT. Estes comentários são importantes para percebermos como uma comunidade judaica daquele tempo interpretava os textos sagrados. Além disso encontramos muitas cópias de targums e midraxes rabínicos (estudos e interpretações). 

4) Livros da Comunidade: A comunidade também escreveu livros sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização da comunidade, livros e textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos, escatológicos, comerciais, etc. Os mais famosos são a Regra da Comunidade, o Rolo do Templo, o Documento de Damasco, a Carta Halákica, a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado também um famoso Rolo de Cobre, um livro escrito em cobre. É um enigma, pois contém o mapa onde estão escondidos cerca de 60 tesouros (mais de 200 toneladas de ouro e prata), mas parece ser uma fantasia e jamais se encontrou qualquer coisa. 

Além dos Manuscritos foi encontrada uma grande quantidade de outros materiais, importantes para o conhecimento da comunidade, como: cerâmicas, moedas, objetos de trabalho, vestuários, calçados, utensílios de cozinha e de trabalho, etc. 

A data em que foram escritos os Manuscritos gerou muita controvérsia. A hipótese de que sejam uma farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à análise com os métodos mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente se pode afirmar que os mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam depois do ano 68 dC. 

3. Como foi a descoberta dos Manuscritos:  

Na primavera de 1947 três beduínos da tribo Ta’amireh, que cuidavam do seu rebanho, na região de Qumran, se divertiam jogando pedras dentro das grutas. Um deles, porém, sentiu um som estranho. Voltou sozinho de madrugada e descobriu entre outras coisas, um vaso contendo manuscritos antigos. Os beduínos tentaram vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão indica que foi um  beduíno que foi em busca de uma cabra perdida que se havia refugiado em uma das grutas e fez as primeiras descobertas). O certo é que os beduínos chegaram a um senhor chamado Kando, que se converteu no intermediário para passar adiante os materiais descobertos. Como pensavam que eram escritos em siríaco, os beduínos foram encaminhados ao metropolita Mar Athanasius em Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita (interessante que o porteiro vendo aqueles beduínos mal vestidos quase colocou tudo a perder, mandandoos embora!). O metropolita comprou os manuscritos por cerca de 100 dólares (tempos depois os vendeu nos USA por 250.000 dólares).  

O metropolita consultou Sukenik, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A partir disso, iniciouse uma longa história em que a descoberta foi levada a sério, os beduínos conseguiram novos manuscritos, porém devido à situação de conflito na região, alguns desses manuscritos foram levados aos Estados Unidos. Iniciaram-se também as escavações e novas buscas na região, coordenadas por G. L. Harding (jordaniano) e pelo Pe. Roland de
Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém, que escavaram e estudaram o local, fazendo estudo da comunidade e em várias expedições fizeram novas descobertas. Porém, os beduínos lembrando que seus avós contavam a história de um caçador que havia seguido uma lebre numa gruta, foram de novo os protagonistas e descobriam duas grutas (chamadas Gruta 4) onde foi encontrado o maior e melhor número de material (era o resto da Biblioteca central da comunidade de Qumran). 

Foi construído em Jerusalém um local especial para colocar e proteger todo este material, o chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa de uma jara, semelhante àquela em que foram encontrados os primeiros manuscritos. É onde hoje se encontra todo o material e está sob a custódia do Museu de Jerusalém, hoje administrado pelo Estado de Israel. Segundo J. Strugnell, cerca  de quatro rolos devem estar desaparecidos ou se perderam para sempre. 

4. A Comunidade de Qumran:  

R. de Vaux e sua equipe tentaram estudar quem foi  esta comunidade que viveu ali e produziu todo este material. Baseados nas escavações e também em historiadores da época como Plínio, o Velho, Fílon e Flavio Josefo, chegou-se à conclusão que a comunidade começou a ser povoada cerca de 700 anos antes de Cristo. Porém, somente uns 200 anos aC. é que teve a organização como grupo essênico separado. Esta sofreu uma forte destruição com o terremoto de 31 aC e depois deve ter ressurgido, até ser destruída pelos romanos e teve seu fim por volta dos anos 100 dC. 

Alguns traços desta comunidade: 

a) Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a admissão, formação e vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e faziam penitência, tinham os bens praticamente em comum. Liam, interpretavam e davam muita importância às Escrituras. Esperavam o fim dos tempos, onde eles, os “filhos das luzes”, combateriam ao lado de Deus contra os “filhos das trevas”;

b) A princípio parece que era uma comunidade constituída somente de homens, porém nos cemitérios foram descobertas ossadas também de mulheres (que podiam ser de visitantes ou familiares que vivam nas proximidades); 

c) Uma figura importante na comunidade era o Mestre da Justiça; 

d) Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram dois os Messias esperados: um de linha mais política, seria o descendente de David e o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão; 

e) Seguiam um calendário de 364 dias. 

O mais provável é que esta comunidade fosse um grupo de essênios, em uma comunidade de mais ou menos 200 pessoas. Alguns poucos sugerem que poderiam ser saduceus, zelotes, etc.  

5. O Novo Testamento e Qumran 

Surgiram várias hipóteses indicando que alguns dos  personagens do NT seriam provenientes de Qumran ou tiveram contatos com esta comunidade. De fato, quem visita hoje Qumran na recepção vê um filme que informa sobre um personagem que esteve na comunidade, mas que foi expulso por não se adaptar à comunidade. Este personagem é identificado como o Profeta João Batista. E se lermos os evangelhos sinóticos vemos que os traços de João Batista (a radicalidade da sua proposta) têm muito a ver com a comunidade de Qumran. Outros sugerem que Tiago “irmão do Senhor” (cf. At 12,17; 15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter ligações com a comunidade e Robert Eisenman até chegou a afirmar que este Tiago seria o Mestre da Justiça da comunidade. Nesses textos, segundo Eisenman, se falaria dos primeiros cristãos e em particular emergiria na sua plena luz o contraste que dividia a corrente de Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns que até chegaram a sugerir que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar que o próprio Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e nunca como essênio). 

É interessante ver o paralelismo de certos termos com os escritos do NT. Um dos vocábulos que mais chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria” que encontramos em At 15,12 e em 2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia de Mt 26,27-28; Mc 14,23-24; Lc 22,20. Em Qumran encontramos o mesmo termo seja em relatos jurídicos e celebrativos. 

Encontramos também outras expressões como: “justiça de Deus”, “pobres em espírito”, “obras da lei”, “Igreja / Assembléia de Deus”, “a sorte dos santos”, “o Senhor do céu e da terra”, etc. que não são encontrados  nos textos rabínicos da época. 

Textos como 2Ts 2,7 “o mistério da iniqüidade”; o  tema paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm 3,21-24; Gl 2,16), a figura de Melquisedec lembrada na Carta aos Hebreus, a expressão “ele será chamado Filho de Deus” de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos escritos Qumrânicos. 

No entanto, se existem paralelos, encontramos também divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito pontos diferentes entre a comunidade de Qumran e as primeiras comunidades cristãs: 1) um clericalismo  maior em Qumran; 2) mais ritualismo e cerimônias; 3) o preceito de amar os filhos da luz e odiar os filhos das  trevas; 4) o militarismo e a preparação para a guerra “apocalíptica”; 5) a supervalorização do calendário; 6) o caráter esotérico; 7) a expectativa dos dois Messias; 8) o relacionamento diverso com o Templo, com os sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.  

6. Problemas com a publicação dos Manuscritos 

No início a Equipe responsável pelo cuidado dos Manuscritos e pela sua divulgação e publicação era constituída de um pequeno grupo, chefiada pelo Pe. de Vaux, da  Escola Bíblica de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores atrapalharam o trabalho.

Basta lembrar que  o território passou por mudanças políticas importantes: Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade de recursos econômicos e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e interpretar os documentos). Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos. Tudo isso fez com que, passados 40 anos das primeiras descobertas, muitos textos ainda não eram de conhecimento público. Surgiram suspeitas sobre as descobertas e sobre os seus conteúdos, falou-se até em conspiração. Mesmo entre os biblistas católicos e protestantes criou-se um mal estar, tanto que J. Fitzmyer qualificou como um “escândalo” esta demora. Era inadmissível que documentos assim importantes ficassem em segredo, mas praticamente sem razão, e que não fossem de domínio público.

 É certo que devido à falta de recursos, financeiros e humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído por J. Strugnell – inglês, presbiteriano e depois católico – já velho), houve atraso nas traduções e publicações. Além disso, a Equipe queria publicar os textos com uma interpretação que fosse unânime entre os diversos membros. Tudo isso deu margem a inúmeras especulações.  

Por isso na década de 90 houve uma mudança na Equipe, mais recursos e pessoas foram colocados à disposição e assim hoje todos os Manuscritos já foram divulgados, pelo menos através de fotografias. Hoje faltam somente uns poucos textos para serem publicados e traduzidos. Em português temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos de Qumran, de Florentino Garcia Martinez (tradução de Valmor da Silva), que traz praticamente todos os 
textos já publicados. 

7. Questões e polêmicas com o Cristianismo  

É certo que documentos dessa importância e que têm algo a dizer sobre a própria comunidade de Qumran, mas também sobre o judaísmo, o cristianismo e a própria cultura mundial, tendem a causar polêmicas e divergências. 

Vejamos as principais:

a) John Allegro: Entre os membros da equipe havia um pesquisador chamado John Allegro, inglês agnóstico. 

Devido a divergências com o grupo, ele se retirou fazendo fortes acusações dizendo que a equipe estava escondendo documentos da Gruta 4. 

Segundo ele, haviam manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que havia uma conspiração do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele mesmo se pôs a publicar manuscritos por conta (e que depois se revelaram de péssima qualidade. Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu livro). Allegro atribui as origens do Cristianismo aos efeitos de um alucinógeno. Quase na mesma direção, está a interpretação de Bárbara A. Thiering que vê João Batista como o Mestre da Justiça e Jesus como o Sacerdote Ímpio. 

b) Textos do NT em Qumran? J.O’Callaghan, jesuíta espanhol, insistiu nos anos 70 que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na gruta 7 (nesta gruta foram descobertos também textos escritos em grego). Segundo ele, seriam textos de Marcos, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Timóteo, Tiago e 2Pedro. Esta hipótese foi assumida também pelo alemão C. Thiede e fez sucesso, mas também logo foi contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão igual; segundo porque a 2Pedro é colocada pela maioria dos biblistas como o último escrito do NT (portanto foi escrita depois da destruição de Qumran); terceiro porque não foi encontrado nenhum livro do NT, mas somente alguns fragmentos com textos parecidos; quarto porque o material é muito  fragmentado e não permite nenhuma hipótese segura.  O texto encontrado (7Q5) e que O’Callaghan supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido o fato dos pães estando o seu coração  endurecido. Terminada a travessia chegaram ao território de Genesaré e chegaram à terra. 

Apenas desceram...” O texto não fala de Jesus e poderia muito bem se referir a um outro fato, com outro grupo, ainda que se pareça com o texto de Marcos. Por isso, hoje se exclui a possibilidade que qualquer uma das 11 grutas contenha algum texto da literatura cristã primitiva. 

c) Jesus era de origem essênia? Alguns autores procuram comparar as práticas, os costumes, as propostas entre Jesus e as primeiras comunidades cristãs com os essênios e descobrem muitas semelhanças. Por isso, afirmam que o cristianismo seria de origem essênia. Esta hipótese também é fraca, pois temos todos os textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus na Galiléia. Embora com isso não se negue que alguns membros do grupo de Jesus possam ter tido ligações com a comunidade de Qumran (João Batista e outros). 

d) O caso do Messias assassinado ou que assassinou: Um dos textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O fragmento estava em certa parte corrompido e foi passível de várias interpretações, por isso não foi logo divulgado. Isso ajudou a aumentar as suspeitas. Os estudiosos sugerem várias traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe da comunidade, o reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no passado como no futuro. Outros preferem: “O príncipe da comunidade o matará (ou: o matou)”.  Poderia também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento de Davi, o matará”  ou: “matará o ímpio”.

Tudo isso traz um certo paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou um livro (à revelia do comitê e desrespeitando até os direitos autorais) onde diz revelar textos inéditos, um dos
quais que falava da execução capital de um Messias e insiste que este Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia sido tornado público. Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman optou pela tradução menos segura. Em 1992, ele publica outro livro juntamente com M. Wise. Porém, em seguida, Wise se retratou das interpretações feitas (cf. se pode ver na apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto, estas publicações tiveram o mérito de tornar públicos muitos dos manuscritos que demoravam para serem publicados.

Sobre os pontos acima, é bom lembrar que eminentes estudiosos encarregados da publicação dos manuscritos sempre afirmaram que, embora se encontrem muitos paralelos, não existe nada nos textos que tenha ligação direta com o nascimento do Cristianismo na Galiléia. Também em nenhum dos textos se encontra o nome de Jesus. Segundo F. G. 
Martinez, as últimas análises dos Manuscritos feitas com carbono 14, comprovam que os mesmos são anteriores ao cristianismo e portanto, “excluem definitivamente as teorias de uma origem zelota ou judeu-cristã dos manuscritos”. 

O que percebemos é que alguns (como O’Callaghan) gostariam de ver em Qumran e no Mar Morto indícios de Jesus e dos textos do Novo Testamento. Não precisamos disso para a credibilidade da nossa fé. Outros,  em outro extremo, querem fazer “provocações” e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens essênias. Nem isso está nos Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica e o cristianismo continua com sua origem na Galiléia.  Embora seja verdade que o pensamento de Jesus algumas vezes se aproximasse das idéias dos essênios, porém a prática de Jesus e das primeiras comunidades se distanciava muito do extremismo deles. 

 8. A importância dos Manuscritos


Os manuscritos de Qumran e do Mar Morto foram, sem dúvida, a maior descoberta do milênio passado para a crítica literária e para o estudo da Bíblia, pois voltamos a ter acesso a cópias de textos bíblicos da época de Cristo e alguns até dos séculos II-III aC. Tanto a religião judaica, como o cristianismo, foram duas religiões muito perseguidas na história, por isso foi difícil preservar os originais ou cópias antigas dos textos sagrados. Para se ter uma idéia, antes desta descoberta, tínhamos a  Bíblia Hebraica de Soncino do ano 1477; a  Bíblia Rabínica (com  massora, isto é, anotações que os escribas faziam nas margens das páginas copiadas) de 1518, já impressa com a descoberta de Gutenberg e a obra de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de 1524/1525. Em 1929 surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle, baseada no Código de Leningrado de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e do Mar Morto nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos livros do AT. Tudo isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia. 

 Para o mundo judaico, além da contribuição bíblica, a descoberta abriu o caminho para o acesso a manuscritos e materiais de dois mil anos, bem como as escavações e o conhecimento de uma comunidade de um grupo judaico (os essênios), que contribuem também para entender melhor a história dos últimos anos da existência do estado de Israel (antes de ser destruído pelos romanos). E proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica pré-cristã. 

Para o cristianismo, também a maior importância está nas descobertas bíblicas, mas também em poder conhecer melhor o ambiente, as estruturas, idéias do mundo judaico da época de Jesus e de uma comunidade que tinha pontos em comum e pontos divergentes com o cristianismo.  

Porém, com J. C. Vanderkam podemos afirmar: “Sustentando que o Jesus histórico era o Messias, no itinerário que conduziu à época escatológica, os cristãos se colocaram muito além em comparação com os essênios de Qumran, os quais esperavam que os seus Messias viriam em um futuro imediato”. 

Concluindo, podemos dizer que tinha razão a afirmação do exegeta bíblico W. F. Albright quando soube  da descoberta dos Manuscritos: “Parabéns pela maior descoberta de manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião: “É fácil de perceber que esta nova descoberta revolucionará os estudos neotestamentários e logo renderá superados os manuais que tratam do ambiente do NT e da crítica textual e da interpretação do AT”. 

 Relação dos Manuscritos bíblicos encontrados: 

 Gênesis    15                   Salmos  36 
 Êxodo       17                   Provérbios  2 
 Levítico     13                   Jó   4 
 Números   8                     Cântico dos Cânticos 4 
 Deuteronômio  29           Rute   4 
 Josué    2                         Lamentações  4 
 Juízes    3                         Eclesiastes  3 
 1-2 Samuel   4                 Ester   0 
 1-2 Reis     3                    Daniel   8 
 Isaías  21                         Esdras   1 
 Jeremias   6                    Neemias       0 
 Ezequiel   6                     1-2 Crônicas   1 
 12 Profetas   8 

Também foram encontradas cópias de alguns livros deuterocanônicos que não vieram a fazer parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4 cópias em aramaico e uma em hebraico); Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta de  Jeremias = Baruc 6 (foi encontrada uma cópia em grego); Salmo 151, que se encontra na LXX (uma cópia). 


Bibliografia  

DONNINI, D. Cristo e Qumran. La chiave di un rapporto controverso. 
In: http://www.etanali.it/mar_morto/files/qumran.htm 

EISENMAN, R. – WISE, M. Manoscritti segreti di Qumran. Edizione italiana a cura di Elio Jucci (Piemme, Asti 1994). 

JUCCI, E. I manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo? in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm 

JUCCI, E. Qumran. A cinquant’anni dalla ricorrenza della scoperta dei manoscritti, in: 
http://dobc.unipv.it/SETH/qumran50.htm 

MACKENZIE, J. L.. Dicionário Bíblico. Verbete: “Qumran” (Paulus, São Paulo 2002). 

MARTINEZ, F. G. Textos de Qumran. Tradução de Valmor da Silva (Vozes, Petrópolis 1995) 

MOLINA, C.  As relíquias que o Mar Morto conservou por mais de  2 mil anos. (O Estado de S. Paulo, 25/11/2004, Caderno 2, pg. D3). 

VANDERKAM, J. C. Manoscritti del Mar Morto. Il dibattito recente oltre le polemiche (Città Nuova, Roma 1997). 

OBS. Para a elaboração deste texto utilizei muito o livro de James C.Vanderkam, que é atualmente membro da Equipe responsável pela tradução e divulgação dos Manuscritos. Além disso, ele mesmo no seu livro – parodiando Lucas – afirma que fez uma boa pesquisa para poder informar melhor todos os fatos ocorridos desde a descoberta dos manuscritos até os dias atuais.  Esperamos que o livro seja publicado no Brasil.

Este texto está em: Presbiteros


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Apocalipse Quântico e O Universo Holográfico

O Apocalipse Quântico e O Universo Holográfico 



video

Fonte: You Tube


Quando aprendemos a superar as dualidades entre bem e mal, certo e errado, entramos em um novo universo, múltiplo e uno, adentramos na unidade versificada e eterna de toda a manifestação divina e percebemos que tudo aquilo que nos tem separado até hoje construiu este universo ilusório e que a mesma força ou natureza que nos separa é a que nos une novamente. Quando nossa consciência desperta acordamos para essa realidade de que sempre fomos UM.



Namastê
MMSorge



O Poder da Visualização - Gregg Braden


O Poder da Visualização - Gregg Braden
The Power of Visualization

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Fonte: You Tube


FIAT LUX



domingo, 16 de outubro de 2011

Iluminando a Mente - Ratthapala Sutta - (MN 82)

Ratthapala Sutta - (MN 82) Ratthapala
A história de Ratthapala que foi um dos mais destacados discípulos do Buda, com um exemplo inusitado do ensino do Dhamma.


***

Clic no Link com a tecla Shift apertada 


Palestra:

(54 minutos)


Acompanhe com o texto abaixo:

Majjhima Nikaya 82
Ratthapala Sutta
Ratthapala




1. Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava perambulando pela região dos Kurus com uma grande Sangha de bhikkhus e por fim ele chegou a uma cidade denominada Thullakotthita.


2. Os brâmanes chefes de família de Thullakotthita ouviram: “Gotama o contemplativo, o filho dos Sakyas, que adotou a vida santa deixando o clã dos Sakyas, que andava perambulando em Kuru com um grande número de bhikkhus chegou em Thullakotthita. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação: ‘Esse Abençoado é um arahant, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, desperto, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta população com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada.’ É bom poder encontrar alguém tão nobre.”



3. Então, os brâmanes chefes de família de Thullakotthita se dirigiram ao Abençoado. Alguns homenagearam o Abençoado e sentaram a um lado; alguns trocaram saudações corteses com ele e após a troca de saudações sentaram a um lado; alguns ajuntaram as mãos em respeitosa saudação e sentaram a um lado; alguns anunciaram o seu nome e clã e sentaram a um lado. Alguns permaneceram em silêncio e sentaram a um lado. Então, o Abençoado os instruiu, estimulou, motivou e encorajou com um discurso do Dhamma.

4. Agora, naquela ocasião Ratthapala, o filho de um dos principais clãs naquela mesma Thullakotthita, estava sentado na assembléia. Então, ocorreu-lhe que: “Como eu entendo o Dhamma ensinado pelo Abençoado, não é fácil viver em família e praticar a vida santa completamente perfeita, totalmente pura, como uma concha polida. E se eu raspasse o meu cabelo e barba, vestisse os mantos de cor ocre e seguisse a vida santa.”

5. Então, os brâmanes chefes de família de Thullakotthita, despois de instruídos, estimulados, motivados e encorajados por um discurso do Dhamma do Abençoado, ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. Então, eles se levantaram dos seus assentos e depois de homenageá-lo, mantendo-o à sua direita, partiram.

6. Pouco depois deles terem partido, Ratthapala foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-lo, ele sentou a um lado e disse para o Abençoado: “Venerável senhor, tal como eu entendo o Dhamma ensinado pelo Abençoado, não é fácil viver em família e praticar a vida santa completamente perfeita, totalmente pura, como uma concha polida. Venerável senhor, eu desejo raspar o meu cabelo e barba, vestir os mantos de cor ocre e seguir a vida santa. Eu receberia a admissão na vida santa sob o Abençoado e a admissão completa.”

“Você foi autorizado pelos seus pais, Ratthapala, para deixar a vida em família e seguir a vida santa?”

“Não, venerável senhor, eu não tenho a autorização dos meus pais.”

“Ratthapala, os Tathagatas não admitem na vida santa ninguém que não tenha a permissão dos seus pais.”

“Venerável senhor, eu farei com que meus pais me dêem a autorização para deixar a vida em família e seguir a vida santa.”

7. Então, Ratthapala levantou do seu assento e depois de homenagear o Abençoado, mantendo-o à sua direita, partiu. Ele foi até os seus pais e lhes disse: “Mãe e pai, tal como eu entendo o Dhamma ensinado pelo Abençoado, não é fácil viver em família e praticar a vida santa completamente perfeita, totalmente pura, como uma concha polida. Eu desejo raspar o meu cabelo e barba, vestir os mantos de cor ocre e seguir a vida santa. Dêem-me a sua permissão para que eu deixe a vida em família e siga a vida santa.”

Quando ele disse isso, os pais dele responderam: “Querido Ratthapala, você é o nosso único filho, amado e querido. Você foi educado com conforto, cresceu com conforto; você nada conhece do sofrimento, querido Ratthapala. Mesmo se você morresse nós o deixaríamos ir contra nossa vontade, então como poderíamos dar a nossa permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?”

Uma segunda vez ... Uma terceira vez Ratthapala disse para os seus pais: “Mãe e pai ... Dêem-me a sua permissão para que eu deixe a vida em família e siga a vida santa.”

Pela terceira vez os seus pais responderam: “Querido Ratthapala ... como poderíamos dar a nossa permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?”

Então, por não ter recebido a permissão dos pais para seguir a vida santa, Ratthapala se deitou no chão e disse: “Exatamente aqui morrerei ou receberei a admissão na vida santa.”

8. Então os pais de Ratthapala disseram: “Querido Ratthapala, você é o nosso único filho, amado e querido. Você foi educado com conforto, cresceu com conforto; você nada conhece do sofrimento, querido Ratthapala. Levante-se, querido Ratthapala, coma, beba e divirta-se. Ao comer, beber e se divertir, você poderá ser feliz desfrutando dos prazeres sensuais e realizar méritos. Nós não permitiremos que você deixe a vida em família e siga a vida santa. Mesmo se você morresse nós o deixaríamos ir contra nossa vontade, então como poderíamos dar a nossa permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?” Quando isso foi dito, Ratthapala permaneceu em silêncio.

Uma segunda vez ... Uma terceira vez os pais de Ratthapala disseram: “Querido Ratthapala ... como poderíamos dar a nossa permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?” Pela terceira vez Ratthapala permaneceu em silêncio.

9. Então os pais de Ratthapala foram até os amigos dele e disseram: “Estimados amigos, Ratthapala está deitado no chão, depois de dizer: ‘Exatamente aqui morrerei ou receberei a admissão na vida santa.’ Venham, estimados amigos, vão até Ratthapala e digam: ‘Amigo Ratthapala, você é o único filho ... Levante-se, amigo Ratthapala, coma, beba e divirta-se ... como seus pais poderiam dar-lhe a permissão deles para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?'"

10. Então, os amigos de Ratthapala foram até ele e disseram: “Amigo Ratthapala, você é o único filho, amado e querido. Você foi educado com conforto, cresceu com conforto; você nada conhece do sofrimento, amigo Ratthapala. Levante-se, amigo Ratthapala, coma, beba e divirta-se. Ao comer, beber e se divertir, você poderá ser feliz desfrutando dos prazeres sensuais e realizar méritos. Os seus pais não permitirão que você deixe a vida em família e siga a vida santa. Mesmo se você morresse eles o deixariam ir contra a vontade, então como poderiam eles dar permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?” Quando isso foi dito, Ratthapala permaneceu em silêncio.

Uma segunda vez ... Uma terceira vez os amigos de Ratthapala lhe disseram: “Amigo Ratthapala ... como poderiam eles dar permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa enquanto você ainda está vivo?” Pela terceira vez Ratthapala permaneceu em silêncio.

11. Então os amigos de Ratthapala foram até os pais dele e disseram: “Mãe e pai, Ratthapala está deitado no chão, depois de dizer: ‘Exatamente aqui morrerei ou receberei a admissão na vida santa.’ Agora, se vocês não derem a permissão para que ele deixe a vida em família e siga a vida santa, ele irá morrer ali. Mas se vocês derem a permissão, vocês irão vê-lo depois quando ele estiver seguindo a vida santa. E se ele não apreciar a vida santa, o que mais poderá ele fazer além de voltar para cá? Portanto, dêem a ele permissão para que deixe a vida em família e siga a vida santa.”

“Então, estimados amigos, nós damos a nossa permissão para que Ratthapala deixe a vida em família e siga a vida santa. Mas, seguindo a vida santa, ele terá de nos visitar.”

Então os amigos de Ratthapala foram até ele e disseram: “Levante-se, amigo Ratthapala. Os seus pais deram a permissão para que você deixe a vida em família e siga a vida santa. Mas, seguindo a vida santa, você terá de visitá-los.”
12. Ratthapala então se levantou e depois de haver recuperado as forças, ele foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-lo sentou a um lado e disse: “Venerável senhor, eu tenho a permissão dos meus pais para deixar a vida em família e seguir a vida santa. Que o Abençoado me conceda a admissão na vida santa.” Então, Ratthapala recebeu a admissão na vida santa sob o Abençoado e a admissão completa.

13. “Então, não muito tempo depois que o venerável Ratthapala havia recebido a admissão completa, uma quinzena depois dele ter recebido a admissão completa, o Abençoado, depois de permanecer em Thullakotthita todo o tempo que ele quis, saiu perambulando em direção a Savatthi. Caminhando em etapas, ele por fim chegou em Savatthi e lá ele se instalou no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika.

14. Permanecendo só, isolado, diligente, ardente e decidido, em pouco tempo, o venerável Ratthapala, alcançou e permaneceu no objetivo supremo da vida santa pelo qual membros de um clã deixam a vida em família pela vida santa, tendo conhecido e realizado por si mesmo no aqui e agora. Ele soube: “O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.”

15. Então, o venerável Ratthapala foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-lo, ele sentou a um lado e disse: “Venerável senhor, desejo visitar os meus pais, se o Abençoado assim o permitir.”

Então, o Abençoado penetrou com a sua mente os pensamentos na mente do venerável Ratthapala. Ao saber que Ratthapala seria incapaz de abandonar o treinamento e retornar para a vida inferior, ele disse: “Agora é o momento, Ratthapala, faça como julgar adequado.”

16. Então, o venerável Ratthapala se levantou do seu assento e, depois de homenagear o Abençoado, mantendo-o à sua direita, partiu. Ele então arrumou o seu lugar de descanso e tomando a tigela e o manto externo, saiu perambulando em direção a Thullakotthita. Caminhando em etapas, ele por fim chegou em Thullakotthita e lá ele se instalou no Parque Migacira do Rei Koravya. Então, ao amanhecer, ele se vestiu e tomando a tigela e o manto externo foi para Thullakotthita esmolar alimentos. Enquanto esmolava alimentos de casa em casa em Thullakotthita, ele acabou chegando na casa do seu pai.

17. Agora, naquela ocasião o pai do venerável Ratthapala estava sentado na sala principal penteando o cabelo. Ao ver o venerável Ratthapala vindo à distância, ele disse: “Nosso único filho, amado e querido, foi convencido a seguir a vida santa por esses contemplativos carecas.” Então, na casa do seu próprio pai o venerável Ratthapala nem recebeu comida esmolada e tampouco uma recusa cortês; ao invés disso, ele apenas recebeu abusos.

18. Foi quando uma escrava que pertencia aos pais de Ratthapala estava a ponto de jogar fora um mingau velho. Vendo aquilo, o venerável Ratthapala disse: “Irmã, se isso é para ser jogado fora, então despeje aqui na minha tigela. Enquanto assim o fazia, ela reconheceu os traços característicos das suas mãos, dos seus pés e da sua voz. Então ela foi até a mãe dele e disse: “Minha senhora, saiba que o filho do meu amo, Ratthapala, voltou.”
“Que bênção! Se aquilo que você diz for verdade, você não mais será uma escrava!”

“Então, a mãe do venerável Ratthapala foi até o pai dele e disse: ‘Chefe de família, disseram que Ratthapala voltou.’”

19. Justamente naquele momento o venerável Ratthapala estava comendo o mingau velho junto à parede de um certo abrigo. O pai dele foi até ele e disse: “Ratthapala, meu querido, com certeza nós ... e você está comendo mingau velho! Você não tem a sua própria casa para onde possa ir?”

“Como poderíamos ter uma casa, chefe de família, quando deixamos a vida em família e seguimos a vida santa? Nós não temos casa, chefe de família. Nós fomos até a sua casa, mas lá não recebemos nem comida esmolada e tampouco uma recusa cortês; ao invés disso apenas recebemos abusos.”
“Venha querido Ratthapala, vamos para casa.”

“Já basta, chefe de família, hoje minha refeição está terminada.”
“Então, querido Ratthapala, concorde em aceitar a refeição de amanhã.” O venerável Ratthapala concordou em silêncio.

20. Então, sabendo que o venerável Ratthapala havia concordado, o pai dele foi para casa e fez com que se ajuntasse numa grande pilha, moedas e barras de ouro cobrindo-as com tapetes. Então, ele disse para as antigas esposas do venerável Ratthapala: “Venham, noras, enfeitem-se com os ornamentos do jeito que Ratthapala gostava e achava vocês mais atraentes e desejáveis.”

21. Quando a noite havia terminado, o pai do venerável Ratthapala fez com que se preparassem na sua casa vários tipos de boa comida e fez com que se anunciasse a hora para o venerável Ratthapala: “É hora, querido Ratthapala, a refeição está pronta.”

22. Então, depois do amanhecer, o venerável Ratthapala se vestiu e tomando a tigela e o manto externo foi para a casa do seu pai e sentou num assento que havia sido preparado. Então, o seu pai fez com que se descobrisse a pilha de moedas e barras de ouro e disse: “Querido Ratthapala, essa é a sua fortuna maternal; a sua fortuna paternal é outra e a sua fortuna ancestral é ainda outra. Querido Ratthapala, você poderá desfrutar da riqueza e realizar méritos. Venha então, querido, abandone o treinamento e regresse para a vida inferior, desfrute da riqueza e realize méritos.”

“Chefe de família, se você quiser seguir o meu conselho, então faça com que esta pilha de moedas e barras de ouro seja carregada em carretas para ser despejada no meio da correnteza do rio Gânges. Por que isso? Porque, chefe de família, por conta desse ouro irá surgir em você muita tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero.”

23. Então, as antigas esposas do venerável Ratthapala abraçaram os seus pés e disseram: “Como são, filho do meu amo, as ninfas pelas quais você vive a vida santa?”

“Nós não vivemos a vida santa devido a ninfas, irmãs.”

“Ratthapala, o filho do nosso amo, nos chama de ‘irmãs,’” elas exclamaram e ali mesmo desmaiaram.

24. Então o venerável Ratthapala disse para o seu pai: “Chefe de família, se há uma refeição para ser dada, então dê. Não nos assedie.”

“Coma então, querido Ratthapala, a refeição está pronta.”

Então, com as próprias mãos, o pai do venerável Ratthapala o serviu e satisfez com vários tipos de boa comida. Em seguida, quando o venerável Ratthapala havia terminado de comer e retirado a mão da tigela, ele se levantou e disse estes versos:

25. “Vejam aqui uma boneca enfeitada,
um corpo feito de chagas,
sujeito a enfermidades, um objeto de preocupações,
no qual não há estabilidade.
Vejam aqui uma figura enfeitada
com jóias e brincos também,
um esqueleto embrulhado pela pele,
feito atrativo através das roupas.
Os pés decorados com tintura de hena
e pó cobrindo a cara:
isso pode enganar um tolo, mas não
aquele que busca a outra margem.
O cabelo penteado em oito tranças
e ungüento ao redor dos olhos:
isso pode enganar um tolo, mas não
Aquele que busca a outra margem.
Um corpo imundo bem enfeitado
tal como um pote de ungüento recém pintado:
isso pode enganar um tolo, mas não
Aquele que busca a outra margem.
O caçador de gamos colocou o laço
mas o gamo não caiu na armadilha;
nós comemos o engodo e agora partimos
deixando o caçador a se lamentar.”

26. Depois que o venerável Ratthapala levantou e disse esses versos, ele foi para o Parque Migacira do Rei Koravya e sentou à sombra de uma árvore para passar o resto do dia.
27. Então, o Rei Koravya se dirigiu ao guarda-florestal da seguinte forma: “Estimado guarda-florestal, arrume o Parque Migacira para que possamos ir até o jardim das delícias encontrar um canto agradável.” – “Sim, senhor,” ele respondeu. Agora, enquanto ele arrumava o Parque Migacira, o guarda-florestal viu o venerável Ratthapala sentado à sombra de uma árvore. Ao vê-lo, ele foi até o Rei Koravya e disse: “Senhor, o Parque Migacira está arrumado. Ratthapala está lá, o filho do clã principal nesta mesma Thullakotthita, ao qual você sempre se referiu de forma elogiosa; ele está sentado à sombra de uma árvore.”
“Então, estimado Migava, já basta do jardim das delícias por hoje. Agora vamos demonstrar nossa estima pelo Mestre Ratthapala.”
28. Então, dizendo: “Dê toda a comida que ali foi preparada,” o Rei Koravya fez com que fossem preparadas um grande número de carruagens reais, e montando numa delas, acompanhado pelas demais carruagens, ele saiu de Thullakotthita com toda a pompa da realeza para ir ver o venerável Ratthapala. Ele foi até onde o caminho permitia e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé, com um séquito das mais eminentes autoridades, até onde se encontrava o venerável Ratthapala. Ambos se cumprimentaram e quando a conversa amigável e cortês havia terminado, ele ficou em pé a um lado e disse: “Aqui está o tapete de um elefante. Que o Mestre Ratthapala sente nele.”
“Não é necessário, grande rei. Sente-se. Eu estou sentado no meu próprio pano.”
O Rei Koravya sentou num assento que havia sido preparado e disse:
29. “Mestre Ratthapala, existem quatro tipos de perda. Porque aqui algumas pessoas sofreram esses quatro tipos de perda, elas raspam o cabelo e a barba, vestem o manto de cor ocre e deixam a vida em família e seguem a vida santa. Quais quatro? Estas são a perda devido ao envelhecimento, a perda devido à enfermidade, a perda de riqueza e a perda de parentes.
30. “E o que é a perda devido ao envelhecimento? Aqui, Mestre Ratthapala, alguém é velho, com a idade avançada, atribulado pelos anos, avançado na vida, já no último estágio. Ele considera o seguinte: ‘Eu sou velho, atribulado pelos anos, avançado na vida, já no último estágio. Já não é fácil que eu obtenha a fortuna que ainda não foi obtida ou aumentar a riqueza que já foi obtida. E se eu raspasse o meu cabelo e barba, vestisse o manto de cor ocre e deixasse a vida em família e seguisse a vida santa.’ Porque ele sofreu a perda devido ao envelhecimento, ele raspa o cabelo e a barba, veste o manto de cor ocre e deixa a vida em família e segue a vida santa. A essa chamamos de perda devido ao envelhecimento. Mas o Mestre Ratthapala ainda é jovem, um homem com o cabelo negro dotado com as bênçãos da juventude, no auge da vida. O Mestre Ratthapala não sofreu nenhuma perda devido ao envelhecimento. O que o Mestre Ratthapala ouviu, ou viu, ou soube, para ter deixado a vida em família e ter seguido a vida santa?
31. “E o que é a perda devido à enfermidade? Aqui, Mestre Ratthapala, alguém está aflito, sofrendo e gravemente enfermo. Ele considera o seguinte: ‘Eu estou aflito, sofrendo e gravemente enfermo. Já não é fácil que eu obtenha a fortuna que ainda não foi obtida ... seguisse a vida santa.’ Porque ele sofreu a perda devido à enfermidade ... deixa a vida em família e segue a vida santa. A essa chamamos de perda devido à enfermidade. Mas o Mestre Ratthapala ainda é jovem, está livre de doenças e aflições, ele possui uma boa digestão que não é nem demasiado fria nem demasiado quente, mas média. Mestre Ratthapala não sofreu nenhuma perda devido à enfermidade. O que o Mestre Ratthapala ouviu, ou viu, ou soube, para ter deixado a vida em família e ter seguido a vida santa?
32. “E o que é a perda de riqueza? Aqui, Mestre Ratthapala, alguém é rico, com grande fortuna, com muitas posses. Aos poucos a sua fortuna desapareceu. Ele considera o seguinte: ‘Antes eu era rico, com grande fortuna, com muitas posses. Aos poucos a minha fortuna desapareceu. Já não é fácil que eu obtenha a fortuna que ainda não foi obtida ... seguisse a vida santa.’ Porque ele sofreu a perda de riqueza ... deixa a vida em família e segue a vida santa. A essa chamamos de perda de riqueza. Mas o Mestre Ratthapala é o filho do principal clã nesta mesma Thullakotthita. O Mestre Ratthapala não sofreu nenhuma perda de riqueza. O que o Mestre Ratthapala ouviu, ou viu, ou soube, para ter deixado a vida em família e ter seguido a vida santa?
33. “E o que é a perda de parentes? Aqui, Mestre Ratthapala, alguém tem muitos amigos e companheiros, pares e parentes. Aos poucos essas pessoas desaparecem. Ele considera o seguinte: ‘Antes eu tinha muitos amigos e companheiros, pares e parentes. Aos poucos essas pessoas desapareceram. Já não é fácil que eu obtenha a fortuna que ainda não foi obtida ... seguisse a vida santa.’ Porque ele sofreu a perda de parentes ... deixa a vida em família e segue a vida santa. A essa chamamos de perda de parentes. Mas o Mestre Ratthapala tem muitos amigos e companheiros, pares e parentes, nesta mesma Thullakotthita. O Mestre Ratthapala não sofreu a perda de parentes. O que o Mestre Ratthapala ouviu, ou viu, ou soube, para ter deixado a vida em família e ter seguido a vida santa?
34. “Mestre Ratthapala, esses são os quatro tipos de perda. Porque aqui algumas pessoas sofreram esses quatro tipos de perda, elas raspam o cabelo e a barba, vestem o manto de cor ocre e deixam a vida em família e seguem a vida santa. O Mestre Ratthapala não sofreu nenhuma dessas perdas. O que o Mestre Ratthapala ouviu, ou viu, ou soube, para ter deixado a vida em família e ter seguido a vida santa?”
35. “Grande rei, há quatro sumários do Dhamma que foram ensinados pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado. Tendo ouvido, visto e compreendido isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa. Quais são os quatro?
36. (1) “’[A vida em] qualquer mundo é instável, é varrida’: esse é o primeiro sumário do Dhamma ensinado pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado. Tendo ouvido, visto e compreendido isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.
(2) “’[A vida em] qualquer mundo não tem refúgio nem protetor’: esse é o segundo sumário do Dhamma ensinado pelo Abençoado que sabe e vê...
(3) “’[A vida em] qualquer mundo não tem nada que lhe pertença, todos deixam tudo e prosseguem’: esse é o terceiro sumário do Dhamma ensinado pelo Abençoado que sabe e vê...
(4) “’[A vida em] qualquer mundo é incompleta, insatisfatória, é a escravidão do desejo’: esse é o quarto sumário do Dhamma ensinado pelo Abençoado que sabe e vê...
37. “Grande rei, esses são os quatro sumários do Dhamma que foram ensinados pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado. Tendo ouvido, visto e compreendido isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.”
38. “O Mestre Ratthapala disse: ‘[A vida em] qualquer mundo é instável, é varrida’ Como deve ser compreendido o significado dessa afirmação?”
“O que você pensa, grande rei? Quando você tinha vinte ou vinte cinco anos de idade, você era um experto controlador de elefantes, um experto cavaleiro, um experto cocheiro, um experto arqueiro, um experto esgrimista, com as pernas e os braços fortes, vigorosos, capaz na batalha?”
Quando eu tinha vinte ou vinte cinco anos de idade, Mestre Ratthapala, eu era um experto controlador de elefantes ... com as pernas e os braços fortes, vigorosos, capaz na batalha. Algumas vezes me perguntava se naquele então eu tinha poderes supra-humanos. Eu não via ninguém que pudesse se igualar a mim em força.”
“O que você pensa, grande rei? Você agora tem a mesma força nos braços e pernas, o mesmo vigor e capacidade na batalha?”
“Não, Mestre Ratthapala. Agora estou velho, com a idade avançada, atribulado pelos anos, avançado na vida, já no último estágio; tenho oitenta anos. Algumas vezes tenho a intenção de colocar o meu pé aqui e coloco meu pé em algum outro lugar.”
“Grande Rei, foi por conta disso que o Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado, disse: ‘[A vida em] qualquer mundo é instável, é varrida’; e quando eu ouvi, vi e compreendi isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.”
“É maravilhoso, Mestre Ratthapala, é admirável quão bem isso foi expresso pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado: ‘[A vida em] qualquer mundo é instável, é varrida’ De fato é assim!
39. “Mestre Ratthapala, nesta corte há tropas com elefantes, cavalaria, carruagens e a infantaria, que servirão para subjugar qualquer ameaça que enfrentemos. Agora, o Mestre Ratthapala disse: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem refúgio nem protetor’. Como deve ser compreendido o significado dessa afirmação?”
“O que você pensa, grande rei? Você tem algum tipo de enfermidade crônica?”
“Eu tenho um problema crônico de ventos, Mestre Ratthapala. Algumas vezes meus amigos e companheiros, pares e parentes, ficam à minha volta, pensando: ‘Agora, o Rei Koravya está a ponto de morrer, agora o Rei Koravya está a ponto de morrer!’”
“O que você pensa, grande rei? Você pode ordenar aos seus amigos e companheiros, pares e parentes: ‘Venham, meus bons amigos e companheiros, pares e parentes. Todos vocês aqui presentes compartam dessa sensação dolorosa para que eu possa sentir menos dor’? Ou você mesmo sozinho tem que sentir aquela dor?”
“Eu não posso ordenar que os meus amigos e companheiros, pares e parentes façam isso, Mestre Ratthapala. Eu sozinho tenho que sentir aquela dor.”
“Grande Rei, foi por conta disso que o Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado, disse: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem refúgio nem protetor’; e quando eu ouvi, vi e compreendi isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.”
“É maravilhoso, Mestre Ratthapala, é admirável quão bem isso foi expresso pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem refúgio nem protetor’. De fato é assim!
40. “Mestre Ratthapala, nesta corte há em abundância moedas e barras de ouro armazenadas em caixas forte e depósitos. Agora, o Mestre Ratthapala disse: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem não tem nada que lhe pertença, todos deixam tudo e prosseguem’. Como deve ser compreendido o significado dessa afirmação?”
“O que você pensa, grande rei? Você agora desfruta de prazeres provido e dotado com esses cinco elementos do prazer sensual, mas será você capaz de mantê-los na vida que virá: ‘Que eu da mesma forma desfrute de prazeres provido e dotado com esses mesmos cinco elementos do prazer sensual’? Ou outros tomarão essas posses, enquanto você prosseguirá de acordo com as suas ações?”
“Eu não poderei mantê-los nas vidas que virão, Mestre Ratthapala. Ao contrário, outros tomarão essas posses enquanto que eu terei que prosseguir de acordo com as minhas ações.”
“Grande Rei, foi por conta disso que o Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado, disse: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem nada que lhe pertença, todos deixam tudo e prosseguem’; e quando eu ouvi, vi e compreendi isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.”
“É maravilhoso, Mestre Ratthapala, é admirável quão bem isso foi expresso pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado: ‘[A vida em] qualquer mundo não tem nada que lhe pertença, todos deixam tudo e prosseguem’. De fato é assim!
41. “Agora, o Mestre Ratthapala disse: ‘[A vida em] qualquer mundo é incompleta, insatisfatória, é a escravidão do desejo’. Como deve ser compreendido o significado dessa afirmação?”
“O que você pensa, grande rei? Você governa o rico país dos Kurus?”
“Sim, Mestre Ratthapala, eu o governo.”
“O que você pensa, grande rei? Suponha que um homem confiável e honesto viesse do leste e dissesse: ‘Por favor, grande rei, saiba que eu vim do leste e lá eu vi um grande país, poderoso e rico, com muitos habitantes e repleto de gente. Há em abundância tropas com elefantes, cavalaria, carruagens e infantaria; lá há marfim em abundância e há abundância de moedas e barras de ouro trabalhadas e em bruto, e há mulheres em abundância. Com o seu exército atual você poderá conquistá-lo. Conquiste-o então, grande rei.’ O que você faria?”
“Nós o conquistaríamos e governaríamos Mestre Ratthapala.”
“O que você pensa, grande rei? Suponha que um homem confiável e honesto viesse do oeste ... do norte ... do sul e dissesse: ‘Por favor, grande rei, saiba que eu vim do sul e lá eu vi um grande país, poderoso e rico ... Conquiste-o então, grande rei.’ O que você faria?”
“Nós o conquistaríamos e governaríamos Mestre Ratthapala.”
“Grande Rei, foi por conta disso que o Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado, disse: ‘[A vida em] qualquer mundo é incompleta, insatisfatória, é a escravidão do desejo’; e quando eu ouvi, vi e compreendi isso, eu deixei a vida em família e segui a vida santa.”
“É maravilhoso, Mestre Ratthapala, é admirável quão bem isso foi expresso pelo Abençoado que sabe e vê, um arahant, perfeitamente iluminado: ‘[A vida em] qualquer mundo é incompleta, insatisfatória, é a escravidão do desejo’. De fato é assim!”
42. Isso foi o que o venerável Ratthapala disse. E tendo dito isso ele disse mais:
“Eu vejo homens ricos no mundo, que mesmo assim,
devido à ignorância, não dão a sua riqueza acumulada.
Com cobiça eles entesouram as suas posses
desejando ainda mais prazeres sensuais.
Um rei que conquistou a terra através da força
e governa sobre um reino circundado pelo oceano
ainda insaciado com esta margem do oceano
desejando a outra margem também.
A maioria das outras pessoas também, não somente um rei,
se deparam com a morte com a cobiça inalterada;
[com planos] ainda incompletos elas largam o cadáver;
os desejos permanecendo insaciados no mundo.
Os seus parentes lamentam arrancando os cabelos,
soluçando, ‘Ai de mim! Que pena! Nosso amado está morto!’
Eles carregam o corpo envolto em mortalhas
colocando-o sobre uma pira para queimar.
Envolto numa mortalha, ele deixa a sua riqueza para trás,
cutucado com paus ele queima [sobre a pira].
E ao morrer, nenhum parente ou amigo
pode aqui lhe oferecer refúgio ou abrigo.
Enquanto os seus herdeiros tomam a sua riqueza, esse ser
tem que prosseguir de acordo com as suas ações;
e ao morrer nada pode seguí-lo;
nem filho, nem esposa, nem riqueza e tampouco propriedades.
A longevidade não é adquirida com a riqueza
nem a prosperidade é capaz de banir a velhice;
curta é esta vida, dizem todos os sábios,
a eternidade não é conhecida, apenas a mudança.
Seja rico ou pobre, ambos sentirão o toque [da Morte],
o tolo e o sábio também;
mas enquanto o tolo é abatido pela sua tolice,
nenhum sábio irá sequer tremer com o toque.
Melhor é a sabedoria aqui do que qualquer riqueza,
visto que através da sabedoria se conquista o objetivo último.
Pois através da ignorância as pessoas cometem ações ruins
enquanto de uma vida para outra fracassam em alcançar o objetivo.
Quando alguém prossegue para o ventre e para o próximo mundo,
renovando os sucessivos ciclos de renascimento,
outro com pouca sabedoria, confiando nele,
também vai para o ventre e para o próximo mundo.
Tal qual um ladrão pego num roubo
é submetido ao sofrimento devido à sua má ação,
assim também, as pessoas após a morte, no próximo mundo,
são submetidas ao sofrimento por suas más ações.
Os prazeres sensuais, variados, doces, deliciosos,
de muitos e distintos modos perturbam a mente:
vendo o perigo nesses vínculos sensuais
eu optei por viver a vida santa, Oh Rei.
Como os frutos caem das árvores, assim também as pessoas,
tanto jovens como velhas, caem quando este corpo chega ao fim.
Vendo isso também, Oh Rei, eu segui a vida santa:
melhor é o seguro da vida do contemplativo.”

***

Suttas mencionados durante a palestra:

Mahadukkhakkhandha Sutta (MN 13) - O Grande Discurso da Massa de Sofrimento
Nivapa Sutta (MN 25) – O Engodo
Mahaparinibbana Sutta (DN 16) - O Grande Discurso do Parinibbana





Bons estudos



Se o amante se lança na chama da vela e não se queima,
ou a vela não é vela ou o homem não é Homem,
Assim o homem que não é enamorado de Deus
e que não faz esforços para o alcançar não é Homem.
Deus é aquele que queima o homem e o aniquila
e nenhuma razão o pode compreender.

Mawlana Rumi - ' Fihi ma fihi'

Por Amor

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"Nem Cristão, Judeu, ou Muçulmano,

nem Hindu, nem Budista, Sufi ou Zen.

Nem uma Religião ou Sistema cultural.

Eu não sou do Oriente nem do Ocidente,

nem dos oceanos nem da terra,

nem material ou etéreo,

nem composto de elementos.

Eu não existo..."


Mawlana Jalaluddin Rumi