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Tradutor Universal

sábado, 8 de janeiro de 2011

Carta Sobre o Futuro da Humanidade

Texto de um Mahatma Mostra as Bases
Filosóficas da Próxima Religião Universal


Um Estudante de Teosofia


“Nós não reconhecemos diferenças nem distinções
na família humana: como brasileiros serão tratados
por nós o china e o luso, o egípcio e o haitiano,
o adorador do sol e o de Mafoma [Maomé].”


“Sejamos nós o primeiro povo que apresente o
quadro prático dessa paz divinal, dessa concórdia
celeste, que deve, um dia, ligar a todo o mundo e
fazer de todos os homens uma só família.” [1]


José Bonifácio de Andrada e Silva, o
patriarca da independência brasileira, em 1822.



1. O Presente e o Futuro.


Livre de imitações, a filosofia teosófica original nos permite ter uma percepção correta das próximas etapas da evolução humana. E isso possui uma importância decisiva, porque a percepção de futuro determina as ações do presente.


Temos ao nosso alcance os instrumentos necessários para construir uma visão saudável de futuro. É de causar estranheza que não tenham sido feitos esforços mais intensos nas últimas décadas para pesquisar e esclarecer melhor o tema da religião não-dogmática e não-clerical que já começa a nascer na nova cultura global.  Sabemos, desde já, que ela será a religião-filosofia, a religião da ética. Ela superará o culto e a adoração cegos, seja de um deus pessoal, seja da mera tecnologia materialista, hoje apresentada ao público leigo como “ciência”. Mas há seguramente muito por descobrir e por realizar nesta linha de trabalho.

Estando em contato com a cultura de um povo  jovem e ainda em formação como o do Brasil − conhecido como “o país do futuro” − parece mais do que oportuno estudar o que a literatura teosófica autêntica afirma sobre o tema da consciência planetária que está a surgir. As palavras de José Bonifácio citadas acima anunciam um dharma, um potencial a ser desenvolvido; mas elas não se limitam ao “gigante adormecido em berço esplêndido”.  O mundo lusófono como um todo deve dar sua contribuição, ainda que modesta, ao processo de surgimento de uma civilização global saudável. As chaves desta transição parecem estar com a sabedoria esotérica.  É ela – ao contrário das ciências e filosofias exotéricas – que nos capacita para compreender o atual momento humano do ponto de vista do seu potencial positivo. O material a seguir investiga a relação viva entre dois termos de uma equação. De um lado, o movimento esotérico autêntico e o círculo mais amplo formado por todos os  indivíduos de boa vontade. De outro lado, a tarefa: o processo prático de transição, individual e coletiva, para as próximas etapas da evolução humana.  


2. As Bases Filosóficas de uma Religião Universal.


Helena Blavatsky foi discípula avançada de certos  raja-iogues dos Himalaias. Em 1875, ela criou o movimento teosófico moderno, cuja primeira meta é a ideia e a lei da fraternidade universal.  A história registra que, nos primeiros anos do movimento teosófico, mais precisamente em 1881,  um dos raja-iogues ou Mestres de Sabedoria que orientavam o trabalho teosófico decidiu buscar conselhos,  e consultou o seu próprio instrutor.


O Mestre dos Mestres  foi então ouvido. O tema era a natureza, a meta e o rumo do movimento que estava sendo iniciado.


O simples fato de que tal consulta foi feita mostra que todos os seres aprendem e se desenvolvem; inclusive aqueles que já superaram a roda do renascimento e alcançaram o adeptado −  a proficiência em ciência esotérica. É uma fantasia, pois,  pensar em um Mestre de Sabedoria supersticiosamente, como se ele fosse todo-poderoso ou como se sua ação tivesse um alcance instantâneo e ilimitado.  Só a pseudo-teosofia transforma Mestres em objetos de adoração pessoal, o que vem resultando na manipulação das mentes de milhares de estudantes de boa vontade. 


O instrutor que foi consultado é chamado pelos Mestres simplesmente de Chohan.  A palavra “Chohan”  significa “Senhor”.  Mais tarde, este mesmo Sábio passou a ser frequentemente referido como “Maha-Chohan”.  Um dos instrutores de H. P. Blavatsky qualificou-o em certa ocasião como “a rocha das idades”.  Em outro momento, referiu-se ao Chohan como  “aquele para quem o futuro é como uma página aberta”.[2]   Nas publicações da Loja Unida de Teosofistas, a LUT, ele é mencionado como “o Grande Mestre”.


O que ocorreu em 1881? 


Depois da consulta com o Chohan, o Mestre fez um relato da conversa.  Este texto é a mais autorizada descrição da Missão que deveria ser cumprida pelo movimento teosófico e esotérico autêntico, não só nas décadas, mas também nos séculos seguintes. Ele contém uma profecia extraordinária, e positiva,  sobre o progresso cultural e histórico da nossa humanidade. Ao contrário de tantas “profecias” que se limitam a anunciar grandes desastres, o texto aponta o rumo da transição vitoriosa dos seres humanos (não sem sacrifícios)  para uma nova era de paz e de fraternidade planetária. 


O texto é uma das primeiras cartas recebidas diretamente dos grandes seres que guiam sutilmente a humanidade, trabalhando em níveis superiores de consciência e estimulando as pessoas de boa vontade. 


Cabe registrar que o trabalho dos Mestres através de H.P.Blavatsky  foi realizado de modo especialmente direto e incisivo devido ao fato de que esta discípula tinha uma alta iniciação e possuía outras características cármicas adequadas para as necessidades daquele momento.  H.P.B. nasceu e viveu em um momento decisivo.  Sua missão preparou o momento culminante da transição para a era de Aquário, ocorrida nove anos depois da sua morte, em 1900.  Através da vida e da obra de H.P.B., os Mestres terminaram de plantar as bases da consciência de uma nova era de liberdade e de fraternidade universal, que ainda levaria, necessariamente, mais de um século para florescer.   


O plantio desta era de consciência planetária vem de muito antes,  e alcançou um ponto alto durante a segunda metade do século 18,  graças ao Iluminismo europeu e americano.


Pensadores como Immanuel Kant, na Alemanha; Voltaire, Rousseau, Diderot, d’Holbach e outros na França; Benjamin Franklin, Thomas Paine e outros nos Estados Unidos, abriram  amplamente as portas para a transição de era. As revoluções norte-americana e francesa, e a modernização inglesa, produziram as transformações sociais e institucionais necessárias para a primeira etapa da transição. 


Um século depois do Iluminismo, a Carta do Grande Mestre define em 1881 o dharma  ou missão maior do movimento esotérico moderno.  Uma das metas do movimento − que ainda está por ser alcançada − é dar elementos para que se produza uma mudança de consciência capaz de superar definitivamente os dogmas religiosos medievais. Isso deve ser feito de modo que o pensamento humano fique livre para a percepção serena da sabedoria universal. É necessário neste contexto que surja uma nova ética planetária. A humanidade deve ser capaz de viver outra vez em harmonia com a Lei da Fraternidade Universal.


Ao ler a Carta do Grande Mestre,   há um detalhe histórico a ser observado.   É preciso ter claro o fato de que, onde o texto menciona “Sociedade Teosófica”, deve-se ler “Movimento Teosófico”. O motivo disso é que a Sociedade Teosófica original já não existe mais. O movimento tem hoje grande diversidade.  A sua fragmentação organizativa começou nos anos 1890, quando Annie Besant deu os primeiros passos no sentido de fazer com que a Sociedade de Adyar abandonasse os ensinamentos originais e passasse a promover práticas ritualísticas.  


Entre outros motivos, a Carta do Grande Mestre tem especial importância  porque nela encontramos elementos centrais de informação sobre a religião do futuro.  Ela dá os contornos gerais  de uma religiosidade que deve surgir mais claramente durante o século 21.   Havia, porém, uma dúvida a respeito do conteúdo exato da carta,  em uma passagem das mais decisivas.  O texto transcrito por C. Jinarajadasa no volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria” (Ed. Teosófica)  diz o seguinte:


“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce das religiões futuras da humanidade.” [3]


A passagem inspira alguns questionamentos.  Existirão, no futuro, muitas religiões competindo entre si? Ou haverá uma única religião global, ainda que não-autoritária? 


O original da Carta do Chohan desapareceu, e há mais de uma cópia dele. Nos primeiros anos do movimento, cópias das Cartas dos Mahatmas circulavam privadamente entre os estudantes. A Sociedade Teosófica de Pasadena − que ao lado da Sociedade de Adyar e da Loja Unida de Teosofistas é uma das principais correntes internacionais de pensamento esotérico − publicou a versão do texto que está no Museu Britânico.  Nesta versão, o documento menciona a religião futura, no singular:


“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade.” [4]


Neste caso o mestre teria afirmado que a religião do futuro será uma só – naturalmente  não-burocratizada e incluindo a necessária diversidade cultural.  


Com o objetivo de  verificar e comprovar diretamente os fatos, o e-grupo SerAtento e o website www.filosofiaesoterica.com  tomaram providências para obter  uma cópia autêntica da mais autorizada versão da Carta do Chohan que existe no mundo. Esta é, sem dúvida, a cópia feita a caneta pelo próprio Alfred Sinnett, o homem que a recebeu do Mestre. Esta versão da carta está no setor de Manuscritos Raros da Biblioteca Britânica (British Library),  em Londres, e seu número de identificação é 45289A.   Em maio de 2009,  foi obtida junto à Biblioteca Britânica uma cópia autenticada completa do manuscrito  45289A   – a Carta do Chohan ou  Grande Mestre. 


O exame direto da carta confirma o fato de que a frase correta é:


“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade.”


Esta comprovação é importante por vários motivos.  Um deles é que ainda hoje a maior parte das publicações teosóficas internacionais – inclusive as que estão voltadas para a teosofia original – continuam a divulgar a frase equivocada, falando de “religiões”, no plural, tal como na versão de C. Jinarajadasa.  


É importante observar também que, na última frase da carta, há uma referência à “verdadeira filosofia, a verdadeira religião”, no singular.


A religião do futuro é a religião-filosofia, a religião-sabedoria.


Ela é uma, mas não é autoritária, e portanto inclui o princípio da diversidade cultural. Ela tem como base a percepção direta e a vivência da fraternidade universal que une todos os seres. Internamente una, ela pode ser vista como externamente múltipla.


A ideia de pluralidade cultural e religiosa é essencial para a visão teosófica de  futuro, e isto está bem documentado. A Carta do Grande Mestre tem um complemento importante na Carta de 1900  (Carta 46 da primeira série de “Cartas dos Mestres de Sabedoria”).  A Carta de 1900 é a última mensagem recebida de um Mestre, e é datada do ano em que começou a era de Aquário.


Reforçando a Carta do Grande Mestre, mas destacando a abertura à pluralidade ao mencionar “as futuras religiões da humanidade”, a  Carta de 1900 afirma:


“A S.T. foi concebida para ser a pedra angular das futuras religiões da humanidade. Para realizar este objetivo, aqueles que a lideram devem deixar de lado suas frágeis predileções pelas formas e cerimônias de qualquer credo particular....”[5]       


Em português, pedra angular é sinônimo de pedra fundamental.  Em inglês, a expressão é a mesma nas duas cartas: “corner-stone”.
 
Aqui estão, lado a lado, a unidade e a pluralidade da religião do futuro.  A pedra angular, a fonte e o alicerce da religiosidade futura devem ser dados pela filosofia do movimento teosófico original.


O texto completo da carta de 1900 não é conhecido por todos. Ele contém duras advertências em relação aos erros da Sociedade de Adyar.  Em poucos parágrafos, a carta antecipa quase todos os erros que a Sociedade de Adyar iria cometer ao longo do século 20 e que ainda  comete na primeira parte do  século 21.  Entre eles estão: 1) O abandono dos ensinamentos originais; 2) O culto à personalidade dos dirigentes; 3) O endeusamento dos Mestres; 4)  A criação de um “papado esotérico”; 5) A adoção de rituais e cerimônias desta ou daquela religião.  


As advertências não foram ouvidas. Ponto por ponto, Annie Besant fez quase exatamente o oposto do que foi recomendado pelo Mestre. Provavelmente por este motivo, Besant também tomou a providência prática de ocultar a carta. O documento só foi publicado 19 anos depois, e mesmo assim despojado de algumas das suas frases e palavras de maior importância. Mais tarde, o texto integral da Carta de 1900 foi finalmente resgatado e publicado por setores independentes do movimento. Isso ocorreu já durante a década de 1980. 


Hoje, ele  pode ser lido em português no site www.filosofiaesoterica.com. [6]


É verdade que Besant tirou a Sociedade de Adyar do rumo original, mas ela não arruinou o movimento como um todo.  Dentro da Sociedade de Adyar, há ainda hoje alguns estudantes que percebem o que é joio e o que é trigo, e optam pela verdade. Além disso, setores significativos do movimento teosófico  − organizados em diferentes países e continentes −  permaneceram desde o início leais à filosofia esotérica e ao ensinamento autênticos. Estes setores detêm algumas chaves filosóficas de grande utilidade para a atual transição mundial.
A teosofia original esclarece o processo cíclico das civilizações, dando-nos clareza e tranquilidade ao olhar o futuro.  Ela mostra que estamos a caminho de uma civilização eticamente correta e carmicamente sustentável. Ela desperta o princípio da sabedoria eterna e da inteligência universal na mente daquele que a estuda com atenção e perseverança.


Transcrevemos a seguir (logo depois das notas bibliográficas) a íntegra da profética “Carta do Grande Mestre”, com a devida correção na frase sobre a religião do futuro. 


Veja-se a força extraordinária que este documento histórico possui, e que estimula em cada leitor não só o necessário espírito crítico em relação às ilusões do momento atual,  mas  também uma calma confiança no futuro da nossa humanidade, a curto, médio e longo prazo. 


NOTAS:


[1] Fonte da primeira citação de José Bonifácio: “José Bonifácio, o Patriarca da Independência”, de Venâncio F. Neiva, Irmãos Pongetti Editores, 305 pp., RJ, 1938, ver p. 278. Veja também “Projetos Para o Brasil”, José Bonifácio de Andrada e Silva,  org. Miriam  Dolhnikoff, Cia. das Letras, SP, 1998, 371 pp., p. 176. Fonte da segunda citação de Bonifácio: Manifesto maçônico do Grande Oriente do Brasil, datado de 17 de junho de 1822, assinado por José Bonifácio e redigido por Joaquim Gonçalves Ledo. Em “História do Grande Oriente do Brasil - A Maçonaria na História do Brasil”, José Castellani, publicação do G.O.B., Poder Central, Brasília,  DF, 1993, 397 pp. (além de Apêndices). Ver  p. 88.


[2]  Sobre  a alusão ao “futuro como uma página aberta”,  veja “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 1996,  p. 57 .   Sobre a alusão a “rocha das idades” ou “rocha das eras”,  veja “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, primeiro parágrafo da Carta 18, volume I, p. 112. 


[3] Carta 01, primeira série, em “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, p. 18.


[4] “View of the Chohan on the T.S.”, texto incluído no volume “Combined Chronology – For use with 'The Mahatma Letters to A.P. Sinnett'  and  'The Letters of H.P.B. To A.P.Sinnett' ”, by Margaret Conger, T.U.P.,  Pasadena, California, 1973, 48 pp., ver especialmente a  p. 44.


[5] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, pp. 106-107.


[6]  Leia a carta de 1900 na íntegra no boletim “O TEOSOFISTA” número 3,  de agosto de 2007. Ele está na seção “O TEOSOFISTA” do website  www.filosofiaesoterica.com .


3. A Íntegra da Carta do Grande Mestre


[Carta 01, primeira série, “Cartas dos Mestres de
Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, 1996 − com uma correção. ]


A doutrina que promulgamos, por ser a única verdadeira, deve, apoiada em provas como as que estamos por oferecer, triunfar, afinal, como qualquer outra verdade. Contudo, é absolutamente necessário incuti-la gradualmente, colocando em prática suas teorias, fatos inquestionáveis para aqueles que sabem, com inferências diretas deduzidas das — e corroboradas pelas — evidências fornecidas pelas modernas Ciências Exatas. Esta é a razão pela qual o Coronel H.S.O., que trabalha apenas para reviver o Budismo, pode ser visto como alguém que se esforça na verdadeira senda da teosofia, muito mais do que qualquer outra pessoa que escolha como meta a gratificação de suas próprias e ardentes aspirações ao conhecimento oculto. Despojado de suas superstições, o Budismo é verdade eterna, e aquele que se esforça por encontrar esta última está buscando a Theo-Sophia, Sabedoria Divina, que é um sinônimo da verdade.


Para que nossas doutrinas ajam de forma prática sobre o assim chamado código moral, ou as idéias de retidão, pureza, auto-esquecimento, caridade, etc., temos de popularizar o conhecimento da Teosofia. O que caracteriza o verdadeiro teosofista não é o objetivo individual e determinado de obter para si mesmo o Nirvana (culminação de todo conhecimento e sabedoria absoluta) — o que, afinal, é apenas um sublime e glorioso egoísmo — mas a dedicação à busca com auto-sacrifício do melhor meio para levar nosso próximo ao caminho correto, beneficiando o maior número possível de nossos semelhantes.


Os setores intelectualizados da humanidade parecem estar-se dividindo rapidamente em dois grupos. Um prepara-se inconscientemente para longos períodos de aniquilação temporária, ou estados de não-consciência, devido ao abandono deliberado de seu intelecto, e aprisionamento nas estreitas trilhas do fanatismo religioso e da superstição, processo que inevitavelmente conduz à total deformação do princípio intelectual; o outro entrega-se desenfreadamente a seus impulsos animais, com a intenção deliberada de submeter-se à aniquilação pura e simples em caso de fracasso, e a milênios de degradação após a dissolução física. Essas “classes intelectuais”, agindo sobre as massas ignorantes que elas atraem, e que as vêem como nobres e dignos exemplos a seguir, rebaixam e degradam moralmente aqueles que deveriam proteger e orientar. Entre a superstição degradante e o ainda mais degradante e brutal materialismo, a pomba branca da verdade dificilmente encontra um lugar onde possa descansar seus pés desprezados e exaustos.


Já é tempo de a teosofia entrar em cena; os filhos dos teosofistas serão mais provavelmente teosofistas, em seu tempo, do que qualquer outra coisa. Nenhum mensageiro da verdade, nenhum profeta jamais conquistou, durante seu tempo de vida, um completo triunfo, nem mesmo Buda. A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade. Para alcançar o objetivo proposto, foi determinado que houvesse uma convivência maior, mais sábia, e especialmente mais benevolente, do superior com o inferior, do Alfa e do Ômega da sociedade. A raça branca deve ser a primeira a estender a mão da fraternidade aos povos de cor escura e a chamar de irmão o pobre “negro” desprezado. Esta perspectiva pode não agradar a todos, mas não é teosofista aquele que se opõe a este princípio.


Em vista do sempre crescente triunfo e, ao mesmo tempo, mau uso do livre-pensamento e da liberdade (o reino universal de Satã, como o chamaria Eliphas Levi), como poderia o instinto combativo natural do homem ser impedido de infligir crueldades e atrocidades,  tirania, injustiça, etc., até hoje inimagináveis, se não através da tranqüilizadora influência de uma fraternidade e da aplicação prática das doutrinas esotéricas de Buda?


Pois, como todos sabem, a libertação total da autoridade do poder único ou lei que a tudo impregna, chamada de Deus pelos padres — Buda, Sabedoria Divina e iluminação ou Teosofia pelos filósofos de todas as épocas — significa também a emancipação, no mesmo sentido, da lei humana.


As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.


O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio — o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito — será visto como  exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica.


Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão,  a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento. Numa palavra, vendo que os objetivos principais da S.T. são mal interpretados por aqueles mais interessados em nos ajudar pessoalmente, como iremos lidar com o restante da humanidade, em meio à maldição conhecida como “luta pela vida”, que é a real e mais prolífica causa da maioria das desgraças e tristezas e de todos os crimes? Por que esta luta teve que tornar-se o esquema quase universal do universo? Nós respondemos: porque nenhuma religião, com exceção do Budismo, ensinou até agora um desapego prático por essa vida mundana, enquanto cada uma delas — sempre com aquela única e solitária exceção — através de seus infernos e danações, inculcou o maior pavor em relação à morte. Por isso nós encontramos, de fato, esta luta pela vida imperando mais violentamente nos países cristãos, prevalecendo especialmente na Europa e na América. Ela é mais fraca nas terras pagãs e praticamente  desconhecida entre as populações budistas. (Na China, durante um período de fome, onde as massas são mais ignorantes em relação a sua própria religião ou a qualquer outra, foi notável o fato de que aquelas mães que devoraram seus filhos pertencessem às localidades onde se encontrava a maior quantidade de missionários cristãos; onde não havia nenhum deles e apenas os bonzos possuíam a terra, a população morria com o máximo de indiferença). Ensine-se ao povo a ver que a vida nesta Terra, mesmo a mais feliz, é apenas um fardo e uma ilusão, que apenas o nosso próprio karma, a causa que produz um efeito, é nosso próprio juiz, — nosso salvador em vidas futuras — e a grande luta pela vida em breve perderá sua intensidade. Não há penitenciárias nas terras budistas, e o crime é praticamente desconhecido entre os budistas no Tibete. (O que foi dito acima não é dirigido a você, ou seja, A.P.S., e nada tem a ver com o trabalho da Sociedade Eclética de Simla. Pretende apenas dar uma resposta à impressão equivocada do Sr. Hume a respeito do “trabalho do Ceilão” como não sendo Teosofia).


O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso. Se os teosofistas dizem: “Nada temos com tudo isso; as classes mais baixas e as raças inferiores (aquelas da Índia, por exemplo, na concepção dos britânicos) não são motivo de preocupação para nós e devem arranjar-se como podem” — o que acontece com nossas belas  declarações sobre benevolência, filantropia, reforma etc.? Serão tais declarações falsas?  E se forem falsas, poderá a nossa senda ser a verdadeira? Não deveríamos nos dedicar a ensinar a alguns poucos europeus, que vivem na abundância — muitos deles carregados  com as dádivas de uma fortuna imerecida — a explicação racional dos fenômenos de campainhas soando no ar, da materialização de xícaras, do telefone espiritual e da formação do corpo astral, e deixar os numerosos milhões de ignorantes, de pobres e desprezados, humildes e oprimidos, tomar conta de si mesmos e de sua vida futura da melhor forma possível que poderem? Nunca! Antes pereça a S.T., com os seus dois infelizes fundadores, do que permitirmos que ela se transforme em mera academia de magia, um centro de ocultismo. Que nós, os devotados seguidores daquele espírito encarnado do absoluto auto-sacrifício, da filantropia, da divina benevolência, assim como de todas as mais elevadas virtudes que se pode alcançar nesta terra de tristeza — o homem dos homens, Gautama Buda — permitíssemos, em algum momento, à S.T. representar a corporificação do egoísmo, o refúgio dos poucos que jamais pensam nos muitos, é uma estranha idéia, meus irmãos.


Entre os poucos vislumbres obtidos pelos europeus acerca do Tibete e de sua hierarquia mística de “Lamas perfeitos”, há um que foi corretamente compreendido e descrito. “A encarnação do Bodhisattva, Padma Pani, ou Avalokitesvara e Tsong-ka-pa e a de Amitabha, que renunciavam, na sua morte, à obtenção do Budado — ou seja, o summum bonum da bem-aventurança e da felicidade pessoal individual — de forma a nascerem mais e mais vezes em benefício da humanidade”. (R.D.) Em outras palavras, que deveriam ser submetidos reiteradamente à miséria, ao aprisionamento da carne e a todas as tristezas da vida, para que, através deste auto-sacrifício, repetido através de longos e monótonos séculos, pudessem tornar-se os meios de assegurar a salvação e a bem-aventurança futura para um punhado de homens escolhidos entre uma das muitas raças da humanidade. E é de nós, os humildes discípulos destes Lamas perfeitos, que se espera aprovação para que a S.T. abandone seu nobre título de Fraternidade da humanidade e torne-se uma simples escola de Psicologia. Não, não, bons irmãos, vocês já estão equivocados há demasiado tempo. Vamos entender-nos bem. Aquele que não se sente competente o bastante para compreender suficientemente a nobre idéia, para trabalhar por ela, não necessita assumir uma tarefa que é muito pesada para ele. Mas dificilmente haverá um teosofista em toda a Sociedade, que não possa auxiliá-la eficientemente através da correção das impressões errôneas dos de fora, quando não ajudar realmente através da propagação dessa idéia. Ah, o homem nobre e altruísta que nos auxiliar efetivamente, na Índia, nesta divina tarefa! Todo nosso conhecimento, passado e presente, não seria suficiente para recompensá-lo.


Tendo explicado nossos pontos de vista e aspirações, tenho apenas mais umas poucas palavras a acrescentar. Para serem verdadeiras, a religião e a filosofia têm de oferecer a solução de todos os problemas. Que o mundo esteja moralmente em tão má condição é uma evidência conclusiva de que nenhuma de suas religiões e filosofias, aquelas das raças civilizadas menos do que qualquer outra, jamais possuíram a verdade. As explanações corretas e lógicas sobre os problemas dos grandes princípios duais — certo e errado, bem e mal, liberdade e despotismo, dor e prazer, egoísmo e altruísmo — são tão impossíveis para elas agora como eram há 1881 anos atrás. Elas estão tão longe da solução quanto sempre estiveram; mas deve haver, em algum lugar, uma solução consistente para estes problemas e, se nossas doutrinas provarem sua competência em oferecê-la, então o mundo será o primeiro a confessar que esta deve ser a verdadeira filosofia, a verdadeira religião, a verdadeira luz, a qual dá a verdade e nada mais que a verdade.


(Final da Carta)

  

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